Por Ivan Machado*
Ontem, 21/02, me pareceu claro que precisaremos de uma canção que descreva as “águas de fevereiro fechando o verão”. Em comparação com as edições anteriores, esse foi o evento mais desafiador, no que se refere a produção e mobilização de quem toca produção cultural em nossa região, pois as mudanças climáticas tem deixado claro o quanto o racismo ambiental também atinge em cheio a arte e o entretenimento entre populações periféricas.
Com horário de início previsto para as 19h e pelo menos vinte turmas confirmadas, ainda aguardávamos a chegada de turmas ilhadas pelas inundações por conta das fortes chuvas, que começaram por voltas das 18h. Esse contratempo, que também isolou na Av. Presidente Dutra a equipe de sonorização contratada, contribuiu com o atraso no início do encontro. Ainda assim, fomo incentivados pelas turmas a manter o evento, que teve início às 00:30h, com a presença de nove turmas, acompanhadas de suas torcidas. O fato interessante é que, entre os participantes, a minoria tinha origem em Mesquita ou até mesmo na Chatuba, território de onde levantamos um quantitativo que passa dos cinquenta turmas. A justificativa dos ausentes foi exatamente os impactos da chuva. Vale observar que a Chatuba ficas situada entre a base do Maciço Gericinó-Mendanha e o Rio Sarapuí, que chega em Mesquita após absorver um enorme volume de água que se origina na Zona Oeste da Capital e segue por outros três municípios, até a Baia de Guanabara. Porém, nada disso impediu que tivéssemos uma clara demonstração de democracia cultural, inclusão e beleza, sob o comando de pessoas de extrema sensibilidade artística.
É inevitável a comparação entre os palhaços de folias de Reis e o crescente número de bate-bolas em nossa Região Metropolitana. Vale observar que é tradicionalmente ao final da jornada do reisado fluminense que surgem os primeiros bate-bolas, logo após a saudação a São Sebastião, no dia 20 e janeiro. Essa é uma prática que se percebe desde os anos 30 e que se irradia do bairro de Santa Cruz, ainda na primeira metade do século XX e chegam a concentrar centenas de turmas como é possível ver hoje, na Estrada Intendente Magalhães e no Centro do Rio, onde centenas de turmas se apresentam, influenciando-se mutuamente no tocante à estética e temáticas de suas fantasias.
Um dos avanços que surgem também na Zona Oeste do Rio e que se reflete na Baixada Fluminense é o grande número de Bateboletes, versão feminina dos Bate-bolas que, na grande maioria dos casos, saem juntamente com as turmas masculinas de seu lugar de origem. O fator de maior relevância percebido nessas duas últimas edições é o crescimento no número de pessoas trans entre as turmas bateboletes. Se em 2010, quando os bate-bolas se tornaram patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro, a participação do gênero feminino ainda não era expressiva, agora vemos o segmento LGBTQIAPN+ não apenas sendo visto como apoio, torcida ou mão de obra na produção das fantasias. O que vemos hoje é esse público conquistando não apenas espaço, mas também a aceitação e o respeito das turmas com as quais interagem, como vimos ontem. Essa ressignificação de gênero vista na categoria Batebolete, parece contribuir de forma importante e simbólica para a diminuição de conflitos motivados pelo machismo entre os envolvidos nessa manifestação cultura carnavalesca. Pois, como percebemos nesse terceiro encontro e nas duas outras edições, em nenhum momento foi visto algum tipo de animosidade entre as quatro categorias que ali se apresentaram.
Por conta dos limitados recursos financeiros, tomamos como critério, premiar com troféu apenas os primeiros lugares entre as categorias Batebolete, Bandeira e Bola e Sombrinha e adereço. Nesse último, deixamos de usar o termo “Sombrinha e Boneco”, ultrapassado por conta dos variados itens que as turmas bate-bolas passaram a trazem e uma das mãos, além da tradicional sombrinha. Avaliados por três jurados, duas mulheres e um homem, tivemos o fato inédito de ver o município de Belford Roxo ganhando nas quatro categorias. Alcaçaram as maiores pontuações as turmas: Meninas da Diretoria na categoria Bateboletes, Muita Onda na categoria Sobrinha e Adereço, Diretoria na categoria Bandeira e Bola e por fim, o mascote da turma Diretoria, na categoria Originalidade.
Concluindo todo o evento por volta das 4:00h, tivemos como destaque o fato de contarmos com o fim da chuva, garantindo assim um retorno seguro de todas as pessoas envolvidas nesse emblemático encontro de uma importante e festiva tradição da cultura popular fluminense. Assim como no ano passado, a Escola de Samba Chatuba de Mesquita foi parceira na realização desse 3º Encontro, cedendo sua quadra para a produção que o Centro de Cultura Popular da Baixada Fluminense e o Centro Cultural Miro Cortez vem realizando, contando também com o apoio do Fórum Para as Cultura Populares e Tradicionais.
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*Ivan Machado é Mestre em Educação, Professor de História, especialista em Arte-Educação e Presidente do Centro de Cultura Popular da Baixada Fluminense.
Referências:
Gualda Pereira, Aline Valadão. Tramas simbólicas: A dinâmica das turmas de bate-bolas do Rio de Janeiro (tese, UERJ).
Turmas de bate-bolas do carnaval contemporâneo do Rio de Janeiro: diversidade e dinâmica (artigo, FUNARTE Digital).
Prefeitura do Rio de Janeiro. Documentos de certificação e mapeamento de grupos de bate-bola.
Tradição, Arte e Juventude em Movimento
O Concurso de Bate-bola, realizado em suas duas edições, 2020 e 2025, consolidou-se como um marco cultural na Chatuba de Mesquita, celebrando a potência criativa e o talento dos jovens periféricos. Esses encontros reuniram dezenas de turmas de bate-bolas e bateboletes, que trouxeram para as ruas não apenas o brilho das fantasias e a irreverência das apresentações, mas também o orgulho e a força da tradição popular.
A edição mais recente contou com a participação de grupos vindos de diferentes municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ampliando o alcance do concurso e fortalecendo o intercâmbio cultural entre comunidades. Mais do que um evento competitivo, o concurso se tornou um espaço de valorização da identidade local, de estímulo à criatividade e de fortalecimento dos laços comunitários, reafirmando a importância do bate-bola como expressão viva da cultura popular fluminense.