Quinta-feira, 26 de março de 2026
Participação em debate sobre soberania alimentar reforça atuação do CCPBaixada no enfrentamento à fome e na defesa dos territórios da região
O Centro de Cultura Popular da Baixada Fluminense (CCPBaixada) esteve no 2º Fórum Climático de Magé, realizado no último sábado, dia 21 de março, no CIEP 327 – Pedro Américo, em Suruí. Com o tema “Territórios e Maretórios por Soberania Alimentar”, o encontro reuniu centenas de participantes e reafirmou um ponto central: não há segurança alimentar sem a proteção dos territórios e de quem vive deles.
A assistente social Patricia Lyra participou de uma das mesas como representante do CCPBaixada e levou ao debate a experiência concreta de quem atua no enfrentamento à fome nas periferias. Cofundadora e coordenadora da Cozinha Solidária CHM, na Chatuba, em Mesquita, ela apresentou um panorama da insegurança alimentar a partir da realidade do território.
Segundo Patricia, o trabalho do CCPBaixada no enfrentamento à fome nasce de uma realidade urgente: pacientes com tuberculose que não conseguiam dar continuidade ao tratamento por falta de alimentação adequada.
— Uma pessoa com fome não consegue manter o tratamento. E, com fome, a gente não faz nada.
A partir dessa experiência, surgiu a Cozinha Solidária, inicialmente voltada ao apoio de pessoas em tratamento de tuberculose e, hoje, ampliada para o atendimento de famílias em situação de insegurança alimentar grave.
— A fome tem essa característica. Ela é a última das violações de direitos que conseguimos identificar, porque, quando alguém está com fome, muitos outros direitos já foram violados. A pessoa que comeu agora não sabe se vai jantar ou se vai comer amanhã.
Ao longo da fala, Patricia destacou que a fome não pode ser tratada como uma questão isolada, mas como expressão de desigualdades estruturais que atravessam o território.
Cozinhas solidárias e respostas do território
A participação do CCPBaixada no fórum também evidenciou o papel das iniciativas comunitárias na construção de respostas concretas para a crise alimentar. A partir da experiência na Baixada Fluminense, a organização reforça que soluções efetivas nascem da escuta, do vínculo e do reconhecimento das realidades locais.
Nesse contexto, Patricia Lyra destacou as cozinhas solidárias como uma tecnologia social construída dentro dos próprios territórios, com capacidade de articular cuidado, acolhimento e acesso à alimentação.
— As cozinhas solidárias ocupam esse lugar de resistência. Somos um equipamento de segurança alimentar que não é do poder público. É tecnologia social, ancestral, construída por nós para nós mesmos.
Ela também ressaltou a diferença desse modelo em relação a outros equipamentos públicos de alimentação, ao enfatizar o vínculo direto com as famílias atendidas.
— Na Cozinha Solidária, você entra, é acolhido, recebe informação e pode levar alimento para toda a sua família.
Ao abordar os impactos da fome, Patricia chamou atenção para a infância e para os efeitos duradouros da insegurança alimentar.
— Uma criança que dorme com fome não sonha com futuro.
A assistente social também fez um alerta sobre a invisibilização do problema na região.
— Não podemos permitir que digam que a Baixada Fluminense não tem fome.
Soberania alimentar em debate
O evento, organizado pelo Instituto Mirindiba, também marcou o lançamento do Guia Popular de Soberania Alimentar e Combate à Fome em Magé (RJ), voltado à incidência política e à garantia de direitos. A gestora ambiental Carla Lubanco, presidente da organização, destacou o papel do material na articulação entre território, cultura e participação social.
— O desenvolvimento sustentável nasce da conexão entre território, cultura e engajamento coletivo. O guia representa um passo fundamental para pensarmos a garantia de direitos no contexto da crise ambiental, oferecendo base para que lideranças reivindiquem políticas públicas que protejam nosso ecossistema e as comunidades que dependem dele — destacou
O deputado federal Henrique Vieira também destacou a centralidade do tema:
— Sem a garantia de uma alimentação saudável, a própria vida não é possível. Infelizmente, a fome no Brasil é fruto de um projeto econômico que coloca o lucro e o dinheiro acima da dignidade das pessoas e do bem comum — disse.
Ao longo do dia, o fórum reuniu lideranças comunitárias, pesquisadores e organizações sociais em debates sobre racismo ambiental, acesso a alimentos saudáveis e os desafios enfrentados por agricultores e pescadores da região. A participação do CCPBaixada reforça o compromisso com a defesa de direitos e com a construção de soluções a partir dos territórios da Baixada Fluminense.
Fotos: Juliana Portella
Por Direção do CCPBaixada
Domingo, 15 de março de 2026
As declarações do apresentador Ratinho sobre a deputada federal Erika Hilton trazem à tona um debate urgente no Brasil: o limite entre liberdade de expressão e discursos que negam a dignidade e a existência de pessoas.
Durante seu programa de TV, Ratinho questionou a legitimidade de Erika Hilton como mulher ao afirmar que “para ser mulher tem que ter útero e menstruar”. A fala ocorreu após a eleição da parlamentar para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A deputada reagiu acionando o Ministério Público de São Paulo e solicitou a investigação das declarações como possíveis casos de transfobia, injúria transfóbica e violência política de gênero.
Mais do que uma polêmica pontual envolvendo uma figura pública e um apresentador de televisão, o episódio expõe um problema mais profundo e estrutural: a persistência de discursos que tentam deslegitimar identidades trans e excluir essas pessoas da vida pública.
A negação da identidade de gênero de uma mulher trans não é apenas uma opinião pessoal. Trata-se de um discurso que reforça preconceitos históricos e alimenta ambientes de hostilidade e violência, sobretudo quando amplificado por meios de comunicação de grande alcance, como o SBT.
No Brasil, país que há anos figura entre os que mais registram assassinatos de pessoas trans no mundo, esse tipo de fala tem consequências que ultrapassam o campo simbólico.
Também é importante observar que a afirmação feita pelo apresentador não atinge apenas mulheres trans. Ao reduzir a identidade feminina a critérios biológicos, como útero ou menstruação, esse discurso acaba por excluir inúmeras mulheres cisgênero: aquelas que não menstruam, as que passaram pela menopausa ou as que precisaram retirar o útero por motivos de saúde.
A tentativa de estabelecer um modelo único de mulher reforça uma lógica de controle sobre corpos e identidades que historicamente tem servido para restringir direitos, negar existências e matar.
A eleição de Erika Hilton para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher representa, por si só, um marco na política brasileira. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, sua trajetória simboliza a ampliação da diversidade na representação política. Questionar sua legitimidade com base em preconceitos não contribui para o debate democrático. Pelo contrário, o enfraquece.
Em uma sociedade plural, divergências políticas são naturais e necessárias. No entanto, o debate público não pode se sustentar na desumanização de indivíduos ou de grupos sociais. Quando uma identidade é negada, abre-se espaço para que direitos também sejam negados.
Instituições públicas, meios de comunicação e a sociedade civil têm responsabilidade na construção de um ambiente de respeito e de convivência democrática. Investigar declarações que possam configurar discriminação não é censura. É reconhecer que a liberdade de expressão não pode ser utilizada como escudo para discursos de ódio.
Para organizações comprometidas com a cultura popular, com os direitos humanos e com a valorização das diversidades que compõem o tecido social brasileiro, episódios como esse reforçam a necessidade de vigilância e posicionamento.
A Baixada Fluminense, território marcado por múltiplas identidades culturais e sociais, também é espaço de convivência entre diferenças. Defender a dignidade de todas as pessoas — independentemente de gênero, origem ou trajetória — é parte essencial da construção de uma sociedade mais justa.
Respeito não é concessão. Respeito é princípio básico de qualquer democracia.
Deputada Erika Hilton | Foto: Reprodução/Instagram